A família e a religião devem estar a serviço
do Reino de Deus!
O atual e inesperado ressurgimento das
práticas de exorcismo, acompanhadas de um indisfarçável desejo de alguns
líderes religiosos de amedrontar e dominar, podem nos induzir a pensar que o
núcleo do evangelho deste domingo seja o combate ao diabo. Na verdade, o que
temos na narração de Marcos é a explicitação e a radicalização do conflito
entre a prática libertária de Jesus e o fechamento ideológico das elites
religiosas, agarradas à defesa do seu poder de domínio. Precisamos distinguir
entre a realidade e a linguagem: a linguagem é apocalíptica, mas a realidade é
o conflito político e social.
Curando um paralítico e declarando-o sem culpa
diante de Deus, calando e expulsando o espírito que fazia calar um doente,
purificando um leproso e enviando-o aos sacerdotes, curando os doentes que se
aproximavam, Jesus desmascara a escravidão mantida pela ideologia do templo. Os
escribas contra-atacam tentando neutralizar sua ação desestabilizadora,
identificando Jesus com o próprio diabo, protótipo dos inimigos do ser humano.
Pretendendo ser os únicos representantes de Deus, os escribas e doutores da lei
dizem que aquele que os desmascara é guiado e motivado por um espírito
diabólico.
Jesus entra neste jogo de linguagem e fala do
reino de satanás como a acentuação simbólica das práticas opressoras da
sociedade judaica. Ele se defende atacando com as armas dos próprios
adversários! Entra no jogo linguístico dos seus opositores para “puxar o
tapete” e mostrar a contradição em que estão atolados. Ironicamente, Jesus diz
que se agisse mesmo em nome do diabo, o reino de satanás estaria dividido e
fadado à ruína, que dizendo que Jesus está fora de si, seus familiares ameaçam
a família que dizem defender. Por seu lado, Jesus diz que sua ação é obra libertadora
e regeneradora de Deus.
É no quadro deste conflito que podemos
compreender a tensão entre Jesus e seus familiares. Sua família havia tomado conhecimento
daquilo que Jesus fazia e dizia, sente-se importunada pela multidão que invade
sua casa, e começa a temer pela integridade de Jesus e pelo bom nome da
família. Eles têm a nítida impressão de que Jesus enlouqueceu, e decidem pôr um
fim nisso tudo. Parece que a mãe e os irmãos evitam entrar no círculo dos
discípulos e chegar perto de Jesus. Dão até a impressão compartilhar da visão
dos escribas, e tentam fazer Jesus interromper ou desistir da sua missão.
A família patriarcal, centrada na figura masculina
e nos laços de sangue, era um dos eixos da sociedade antiga, um dos anéis da
corrente da dominação, uma célula de reprodução da sociedade excludente e
intolerante. Jesus avança na superação do sistema de opressão que impede a vida
e a liberdade do povo, mas não se detém na crítica destruidora das
instituições, dos modelos de relacionamento. Ele coloca Deus no lugar da
autoridade patriarcal, substitui a estreiteza dos laços de sangue pelos
vínculos que brotam da condição humana compartilhada. Do ponto de vista do
Evangelho, Deus e o seu Reino são absolutos, e todas as instituições e
autoridades, inclusive a família, são relativas e transitórias.
A ti, Jesus de Nazaré, irmão de todos os
homens e mulheres regenerados no dinamismo do teu Reino, dirigimos nosso olhar
e nossa prece. Fortalece nossa vontade, a fim de que tenhamos a coragem de
romper com os laços que nos amarram a nós mesmos e aos sistemas que oprimem.
Amplia o círculo da nossa comunhão, para que ele inclua todos os seres humanos,
começando pelas vítimas da violência que se impõe nas favelas e morros, e
chegando aos povos ribeirinhos do rio Amazonas. E faz com que nossas
comunidades sejam uma família alargada, ventre no qual são gerados homens e
mulheres iguais. Assim seja! Amém!
Itacir Brassiani msf
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