Jesus não desperdiça nenhuma ocasião para ensinar aqueles
que o seguem. Ele propõe uma inversão radical na escala dos valores da
sociedade e da religião, e não se cala nem mesmo na casa de uma autoridade
moral, em pleno jantar festivo para o qual havia sido convidado com especial
deferência. Jesus apresenta a lição do evangelho de hoje num solene dia de
sábado, na casa de um dos chefes dos fariseus, logo depois de afirmar que as
necessidades de uma pessoa estão acima das leis. Vendo que os convidados disputam
os primeiros lugares, propõe uma reflexão sobre o orgulho e a humildade.
Como modelo de evangelizador, Jesus não se permite ficar na
periferia das coisas. Seu ensino hoje não é sobre as regras de boas maneiras
numa refeição solene, mas sobre um princípio fundamental da vida cristã: quem é
o maior ou o primeiro, o mais importante ou notável na vida cristã. Jesus
começa pela crítica ao orgulho e aos privilégios e passa à questão dos
beneficiários da nossa atenção. Ele conhece o costume quase universal de privilegiar,
tanto nas festas quanto nas decisões e projetos mais essenciais, os familiares,
parentes, amigos e vizinhos. Para Jesus, este é um círculo muito estreito.
O saudoso Dom Helder Câmara ensinou que o maior perigo que
nos ameaça é o desejo de sempre vencer e jamais fracassar, de sentir-se sempre
querido e nunca sobrar. E chegou a advertir um colega no episcopado: “Mais
grave do que ser apanhado pela engrenagem do dinheiro, é ser apanhado pela
engrenagem do prestígio”. Na verdade, a busca privilégios e compensações é tão
desgastante como infantilizadora: o caminho que dá acesso a eles geralmente
passa pela subserviência e é acompanhado pelo medo do anonimato e pelo apego
doentio aos bens e a toda sorte de títulos...
Na carta aos Hebreus, a santa Palavra sublinha que, em Jesus
e na comunidade daqueles que o seguem, torna-se visível a assembleia dos
primogênitos, o verdadeiro povo de Deus, constituído de homens e mulheres que
descobriram a grande honra de amar e servir. Esta é a verdadeira cidade de
Deus, a manifestação e a morada de Deus no mundo. Fogo, tempestade, trevas,
sons de trovões e trombetas são nada diante do sinal grandioso de homens e
mulheres mansos e corajosos, humildes e generosos, ternos e fortes, humanos e
compassivos. A estes Deus se revela, e no louvor dos seus lábios se alegra.
Itacir Brassiani msf