A Justiça do Reino de Deus é mais que
cumprimento de leis!
No evangelho deste domingo, Jesus propõe duas
ênfases na leitura e na interpretação das Escrituras Sagradas. A primeira é a
vinculação das Escrituras ao sonho de Deus, ao seu projeto de vida abundante
para todos, com clara prioridade aos que são tratados como ‘últimos’ na escala
social. Quando este vínculo é rompido ou enfraquecido, as Escrituras podem
produzir o contrário daquilo que Deus quer transmitir, e acaba justificando dos poderosos, ocultando as relações de opressão, aumentando o peso do
fardo que penaliza os mais fracos da sociedade, afirmando orgulhosa dos crentes
diante do próprio Deus.
Um primeiro exemplo da radicalização da Lei e
da concretização das bem-aventuranças há pouco proclamadas solenemente está no
campo das tensões nas relações interpessoais. Esta questão era já contemplada
pelo mandamento “Não matarás!” Mas, para Jesus, o conteúdo desta lei não se
resume em evitar o homicídio. O projeto de Deus é muito mais amplo, e passa
pela pacificação das relações e pela superação das posturas raivosas e da
linguagem eivada de desprezo, preconceito e violência, como aquela tão
comumente usada hoje nas redes sócias em relação a quem quer que pense
diferente.
Uma segunda área de demonstração é a liturgia.
Jesus critica o culto que ignora as rupturas nas relações humanas e não leva à
reconciliação. Para ele, a vida concreta é mais importante que os ritos
religiosos, e a percepção das tensões e rupturas relacionais tem primazia sobre
a ortodoxia. “Deixa a tua oferenda diante do altar e vai primeiro
reconciliar-te com teu irmão.” E que ninguém se engane, sentindo-se justificado
por não ter matado ninguém ou postergando para um futuro indefinido a
reconciliação. É preciso fazer isso antes de chegar ao tribunal do incerto fim
da vida. O tempo é agora!
Ainda nesse âmbito da relação de gênero, Jesus
reprova a dominação masculina sobre a mulher, mesmo quando sancionada pela
cultura e pela lei. Dizer que a lei permite ou que é costume não desculpa nem
justifica ninguém. Este é o horizonte da proposta de Jesus no caso do divórcio.
A permissão legal do divórcio legitimava o descompromisso do marido com a
ex-companheira e garantia ele o direito de maltratá-la e execrá-la publicamente,
mas a ética do Reino de Deus restringe o poder ilimitado e violento dos homens.
Jesus Cristo, mestre na formação de uma nova
mentalidade e na construção de um mundo mais humano: ensina-nos a colocar as
leis e tradições no seu devido lugar, anão transformá-las em instrumentos de
dominação. Que teu ensino e teu exemplo desenvolvam em nós relações pacificadas,
igualitárias e solidárias. E que teu Espírito suscite em nossas comunidades
cristãs a criatividade livre e a verdade fiel, sendas que levam à uma justiça
radical, ampla, duradoura e humanizadora. Assim seja! Amém!
Itacir Brassiani msf
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