Jesus é Pastor, Profeta e Testemunha, o homem
verdadeiro!
É verdade que o Apocalipse de São João atribui
a Jesus, com insistência, o poder, a riqueza, a honra, a glória, a sabedoria, a
força e louvor e tudo o mais (cf. Ap 5,12-13). Mas não podemos esquecer que
tudo isso se diz daquele que é a pedra rejeitada, a vítima do próprio poder
estabelecido, e que Jesus é “a testemunha fiel, o primeiro a ressuscitar dos
mortos”. Nessa condição de testemunha e vítima da pena de morte, ele é “chefe
dos reis da terra”. Partilhando por amor a sorte dos condenados, Jesus perdoou
nossas dívidas e nos constituiu como povo novo e soberano, do qual é guia e
líder inconteste.
A cena de Jesus diante de Pilatos, que nos é
proposta para a liturgia, é, no mínimo, paradoxal. Um preso despojado de tudo,
acusado pelos seus próprios compatriotas, sem direito à defesa, está cara-a-cara
com uma autoridade plenipotenciária e a serviço de um poder invasor. Um homem
habituado às estradas é colocado diante de um senhor habitante de palácios. A
cena insinua um confronto radical, e a pergunta de Pilatos é clara: “Tu és o
rei dos judeus?” Pilatos não pergunta se ele é um rei, mas se é o rei; e não o
refere a Israel (povo escolhido por Deus) mas aos judeus (um povo ou uma raça
em meio a tantas).
Parece que Jesus aceita a qualificação de rei,
mas recusa a redução da sua missão ao povo judeu. “Você está dizendo que eu sou
rei.” Ele não é o único rei, nem apenas rei dos judeus. Jesus preside e dirige
o amplo movimento do reino de Deus, que reúne todos os homens e mulheres de boa
vontade, promove a liberdade e a vida de todos, e não usa da força para
defender os privilégios das elites. “Se o meu reino fosse deste mundo, os meus
guardas lutariam para que eu não fosse entregue às autoridades dos judeus.” Ele
é rei exatamente e apenas na medida em que dá sua vida por todos.
Jesus diz que nasceu e veio ao mundo para dar
testemunho da verdade. Sua prioridade é ser testemunha do amor incondicional de
Deus por todas as criaturas, especialmente pelos oprimidos e, diante disso, sua
própria sobrevivência é secundária. A verdade é que Deus ama a ponto de dar a
própria vida, e isso não expressa a fraqueza mas a invencível força de Deus.
Por isso, é na cruz que se revela e realiza a realeza de Jesus Cristo e do ser
humano. Nada mais paradoxal que esta figura de rei! Nada mais distante da
imagem de rei do que a figura de um escravo ou um executado que não tem a quem
apelar.
Itacir Brassiani msf