O caminho de Jesus Cristo pede despojamento e
profecia!
Ao que parece, o conteúdo da pregação de Jesus
e o testemunho contundente das suas ações não eram suficientes para que os
discípulos intuíssem claramente sua identidade e sua missão. Mais: a tendência
predominante era entendê-lo no horizonte da ideologia nacionalista, movida pela
ardente expectativa da vinda de um messias identificado com a tradição
monárquica, cuja tarefa seria libertar Jerusalém do domínio do imperador romano
e seu exército. Para tomar distância deste perfil de líder popular nacionalista
e para consolidar sua vocação diante do Pai Jesus se retira em oração.
Depois de aprofundar a consciência sobre a
missão que o Pai lhe confia, Jesus retoma a conversa com os discípulos e propõe
um balanço das opiniões sobre ele. “Quem dizem as multidões que eu sou?” Na
verdade, o povo se perguntava, e alguns arriscavam afirmações aproximativas:
ele poderia ser João Batista ressuscitado; ou Elias que retornava para
purificar a fé; ou então um outro profeta importante. Em todos os casos, Jesus
aparece claramente identificado com a tradição profética. Ele mesmo acenara
para isso na sinagoga de Nazaré quando, quando dissera que “nenhum profeta é
bem recebido na sua própria terra...”
Um pouco antes do episódio de hoje, diante da
cura do filho da viúva de Naim o povo dizia: “Um grande profeta surgiu entre
nós...” E o fariseu que o recebera em sua casa para uma refeição questionava:
“Se este homem fosse profeta, saberia quem é esta mulher que está tocando
nele...” Entretanto, não podemos deter-nos nas respostas que estão na boca do
povo ou que aprendemos de cor e boiam na superficialidade das fórmulas pouco
consequentes. Afinal, que ressonâncias concretas têm em nossa vida e em nossos
projetos fórmulas abstratas e distantes como Messias, Filho de Deus, Redentor,
Salvador, Senhor?
A pergunta que Jesus dirige aos discípulos
pede também a nós uma tomada de posição. “E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro
responde que ele é “Cristo de Deus”, recorrendo um conceito que denota um
messianismo de natureza teocrática e nacionalista, que alimenta a expectativa
de uma intervenção poderosa da parte de Deus para liberar o território palestino
do domínio romano e reinstalar a monarquia judaica. Jesus reage a esta resposta
de Pedro, determinando que os discípulos não anunciem uma coisa dessas ao povo.
Os discípulos estão imersos numa ideologia que fanatiza e desvia do verdadeiro caminho
de Jesus.
Nas imagens e conceitos que usamos para falar
de Jesus está embutido aquilo que esperamos dele e pensamos sobre a pessoa
humana. Os próprios chefes do judaísmo dão a entender que há uma ideia de poder
e de sucesso conexa com o conceito “Cristo de Deus” (cf. Lc 23,35). Não é por
nada que, mesmo depois de acompanhar Jesus no seu caminho até Jerusalém e de
participar da sua ceia sacramental, os discípulos ainda discutem qual deles devia
ser considerado o maior (cf. Lc 22,14-30). Por isso, Jesus prefere falar do
caminho concreto e histórico do Filho do Homem: sofrimento e rejeição por parte
da liderança religiosa.
Jesus de Nazaré, carpinteiro como teu pai e
ouvinte assíduo da Palavra: sendo filho da humanidade e nosso irmão maior, tu
és o Ungido de Deus, do Pai dos pobres. Olhando para teu corpo trespassado, te
reconhecemos como um dos nossos e, por isso, como o início do Ano Novo e
Caminho que nos leva à plena liberdade. Exultamos de alegria à sombra das asas
da tua cruz e tomamos a nossa, nos turbulentos e tempos que vive a nação
brasileira. Com vozes de alegria, nossa boca te canta louvores. Assim seja!
Amém!