A cena do Evangelho de hoje é precedida por
uma catequese muito exigente de Jesus aos discípulos. Depois de ter sido
reconhecido formalmente por Pedro como “o Cristo de Deus”, Jesus acrescentara: “É
necessário o Filho do Homem sofrer muito e ser rejeitado pelos anciãos, sumos
sacerdotes e escribas, ser morto e, no terceiro dia, ressuscitar” (Lc 9,22). E
dissera, voltando-se aos que o seguiam: “Se alguém quer vir após mim, renuncie
a si mesmo, tome sua cruz, cada dia, e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua
vida a perderá, e quem perder sua vida por causa de mim a salvará” (Lc 9,23).
Parece que os discípulos não conseguem
entender e aceitar este caminho proposto por Jesus. Sentem-se envergonhados e
desconcertados diante de um Messias servidor e perseguido. Resistem a um
caminho que os levará a ser companheiros dele no anúncio do Reino e na
perseguição. Não passa pela cabeça dos discípulos carregar a cruz da rejeição e
da criminalização, imposta a quem ousa se rebelar contra os poderes do Império.
Eles lutam desesperadamente contra essa possibilidade. Segundo Lucas, esta luta
interior dos discípulos se prolongava por mais ou menos oito dias.
É neste contexto que Jesus, pressionado pelos
próprios discípulos, sente necessidade de se retirar para rezar e discernir o
caminho que deve seguir para revelar o rosto do Pai e realizar sua vontade.
Chama e leva consigo Pedro, Tiago e João, os primeiros discípulos que havia
chamado a segui-lo, mas também os mais resistentes ao caminho que propunha e os
mais aferrados às ambições de poder e à imagem de um Messias potente e
vitorioso. Nesta cena, o medo e a resistência dos discípulos se mostra simbolicamente
no sono, como aconteceria de novo mais tarde, no Jardim das Oliveiras (cf. Lc
22,45).
O sono expressa o desejo de fugir, de dar as
costas, de voltar atrás, de não escutar nada senão as próprias ideias e
ambições. Os discípulos simplesmente não suportam escutar o diálogo de Jesus com
Moisés e Elias, respectivamente, guia e profeta do povo, ambos duramente
perseguidos e não muito bem-sucedidos. O diálogo é sobre o êxodo de Jesus que
aconteceria mais tarde em Jerusalém, ou seja: o enfrentamento com os poderes
opressores e a saída das malhas de uma religião estreita e sedenta de sucesso,
discriminadora e opressora dos mais fracos. Essa conversa não interessava aos
discípulos.
O trio resistente e sonolento é despertado
pelo brilho de Jesus e seus convidados, não pelo conteúdo da conversa. A glória
e o poder estão claramente no horizonte do interesse deles, tanto que desejam
reter o tempo, separar os espaços e eternizar esta agradável visão. Estando
todos atordoados e sem saber o que dizer, Pedro toma a iniciativa: “Mestre, é
bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas...” Não lhes interessa acolher e
compreender nem as palavras de Jesus, nem a memória do êxodo e da profecia. O
que desejam é um lugar no qual possam encontrar paz e sossego, longe dos
desafios da missão.
Mas a glória e o esplendor do poder não são
expressões inequívocas de Deus e da realização da sua vontade. É a sombra
tenebrosa de uma nuvem – imagem daquela nuvem que acompanhara o povo na
caminhada através do deserto e envolvera a montanha na celebração da Aliança –
que desfaz o entusiasmo dos discípulos e os conduz à verdade à qual resistem:
“Este é o meu filho, o eleito. Escutai-o!” É a profecia e o serviço, e não as
vestes de glória, que manifestam o esplendor de Deus.
Itacir Brassiani msf